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11/03/2010 09:30 O JORNALISMO DELINQUENTE
(Por Demétrio Magnoli, na FSP))
As pessoas , inclusive os jornalistas, podem ser contrárias ou favoráveis à introdução de leis raciais no ordenamento constitucional brasileiro. Não é necessário, contudo, falsear deliberadamente a história como faz o panfleto disfarçado de reportagem publicado nesta Folha sob as assinaturas de Laura Capriglione e Lucas Ferraz ("DEM corresponsabiliza negros pela escravidão", Cotidiano, 4/3).
A invectiva dos repórteres engajados contra o pronunciamento do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) na audiência do STF sobre cotas raciais inscreve no título a chave operacional da peça manipuladora.
O senador referiu-se aos reinos africanos, mas os militantes fantasiados de repórteres substituíram "africanos" por "negros", convertendo uma explanação factual sobre história política numa leitura racializada da história.
Não: ninguém disse que a "raça negra" carrega responsabilidades pela escravidão. Mas se entende o impulso que fabrica a mentira: os arautos mais inescrupulosos das políticas de raça atribuem à "raça branca" a responsabilidade pela escravidão.
Num passado recente, ainda se narrava essa história sem embrulhá-la na imaginação racial. Dizia-se o seguinte: o tráfico atlântico articulou os interesses de traficantes europeus e americanos aos dos reinos negreiros africanos. Isso não era segredo ou novidade antes da deflagração do empreendimento de uma revisão racial da história humana com a finalidade bem atual de sustentar leis de divisão das pessoas em grupos raciais oficiais.
Demóstenes Torres disse o que está nos registros históricos. Os repórteres a serviço de uma doutrina tentam fazer da história um escândalo.
O jornalismo que abomina os fatos precisa de ajuda. O instituto da escravidão existia na África (como em tantos outros lugares) bem antes do início do tráfico atlântico. Inimigos derrotados, pessoas endividadas e condenados por crimes diversos eram escravizados. A inexistência de um interdito moral à escravidão propiciou a aliança entre reinos africanos e os traficantes que faziam a rota do Atlântico. Os empórios do tráfico, implantados no litoral da África, eram fortalezas de propriedade dos reinos africanos, alugadas aos traficantes.
O historiador Luiz Felipe de Alencastro, convocado para envernizar a delinquência histórica dos repórteres ("África não organizou tráfico, diz historiador"), conhece a participação logística crucial dos reinos africanos no negócio do tráfico. Mas sofreu de uma forma aguda e providencial de amnésia ideológica ao afirmar, referindo-se ao tráfico, que "toda a logística e o mercado eram uma operação dos ocidentais".
Os grandes reinos negreiros africanos controlavam redes escravistas extensas, capilarizadas, que se ramificavam para o interior do continente e abrangiam parceiros comerciais estatais e mercadores autônomos. No mais das vezes, a captura e a escravização dos infelizes que passaram pelas fortalezas litorâneas eram realizadas por africanos.
Num livro publicado em Londres, que está entre os documentos essenciais da história do tráfico, o antigo escravo Quobna Cugoano relatou sua experiência na fortaleza de Cape Coast: "Devo admitir que, para a vergonha dos homens de meu próprio país, fui raptado e traído por alguém de minha própria cor". Laura e Lucas, na linha da delinquência, já têm o título para uma nova reportagem: "Negros corresponsabilizam negros pela escravidão".
O tráfico e a escravidão interna articulavam-se estreitamente. No reino do Ndongo, estabelecido na atual Angola no século 16, o poder do rei e da aristocracia apoiava-se no domínio sobre uma ampla classe de escravos.
No Congo, a população escrava chegou a representar cerca de metade do total. O reino Ashanti, que dominou a Costa do Ouro por três séculos, tinha na exportação de escravos sua maior fonte de renda. Os chefes do Daomé tentaram incorporar seu reino ao império do Brasil para vender escravos sob a proteção de d. Pedro 1º.
Em 1840, o rei Gezo, do Daomé, declarou que "o tráfico de escravos tem sido a fonte da nossa glória e riqueza".
Em 1872, bem depois da abolição do tráfico, o rei ashanti dirigiu uma carta ao monarca britânico solicitando a retomada do comércio de gente.
O providencial esquecimento de Alencastro é um fenômeno disseminado na África. "Não discutimos a escravidão", afirma Barima Nkye 12, chefe supremo do povoado ganês de Assin Mauso, cuja elite descende da aristocracia escravista ashanti. Yaw Bedwa, da Universidade de Gana, diagnostica uma "amnésia geral sobre a escravidão".
Amnésia lá, falsificação, manipulação e mentira aqui. Sempre em nome de poderosos interesses atuais.
DEMÉTRIO MAGNOLI, sociólogo, é autor de "Uma Gota de Sangue - História do Pensamento Racial" (SP, Contexto, 2009). Moacir Japiassu | comentários(0)
11/03/2010 09:22 "DE SOQUINHO"
O considerado Youssef Ibrahim, veterano advogado, nosso novo
correspondente no Vale do Paraíba, despacha mais uma de sua movimentada banca:
Acho que na reforma ortográfica deveriam inserir uma regra pela qual tornar-se-ia obrigatório que todo parágrafo começasse com “Importante salientarmos que,...”, nunca dispensada a vírgula depois do “que”, mesmo separando-se a ação do sujeito, sujeito do verbo ou seja lá o que for. A vírgula deixa o texto bonito, lindão mesmo! O leitor é obrigado a ler “de soquinho”, e pode acabar com um incurável soluço, mas que é bunitão, aaahh, isso é!
Refiro-me ao processo... em que outro nobre integrante da ADEBRA escreveu:
“MARIO CELSO... e ..., por meio de seu advogado..., vem, respeitosamente, à presença de Vossa Excelência, CONTESTAREM à Ação de EXTINÇÃO DE CONDOMÍNIO que lhe move OTACÍLIO FELÍCIO CABRAL e Outros,...”
Note, meu amigo, o inebriante uso das técnicas de estética e a perfeita correção quanto à concordância verbal. E o “contestarem” então, num é uma preciosidade? “Vem contestarem”... É uma poesia!
Pensa que para por aí? Nana-nina-não! Segue:
“A presente Ação (pergunto eu, de enxerido que sou: afinal, é contestação ou ação, pois se é a “presente”, é a própria ação, a petição inicial, enfim???) não merece ser acolhida por Esse MM. Juízo, uma vez que os fatos articulados na inicial, não se coaduna com a verdade, senão vejamos:”
Uau! “os fatos articulados na inicial – VÍRGULA – não se coadunA com a verdade...”, ou seja, os fatos, ora os fatos, não É verdadeirO, pois os fatos “numsicuaduna” com porra nenhuma daquilo que verdadeiramente se deu, ora pois!!!!!
E viva a ADEBRAAAAA!!!!!!!!!!! Moacir Japiassu | comentários(0)
11/03/2010 09:20 ESCOLHA SEU EPITÁFIO
INTERNAUTA
www.aquijaz.com.br
AGRÔNOMO
Favor regar o solo com Neguvon. Evita vermes.
ALCOÓLATRA
Enfim, sóbrio.
ARQUEÓLOGO
Enfim, fóssil.
ASSISTENTE SOCIAL
Alguém aí, me ajude!
BROTHER
Fui.
CARTUNISTA
Partiu sem deixar traços.
DELEGADO
Tá olhando o quê? Circulando, circulando...
ECOLOGISTA
Entrei em extinção.
ENÓLOGO
Cadáver envelhecido em caixão de carvalho, aroma Formol e after tasting que denota presença de Microorganismos diversos.
FUNCIONÁRIO PÚBLICO
É no túmulo ao lado.
GARANHÃO
Rígido, como sempre.
GAY
Virei purpurina.
HERÓI
Corri para o lado errado.
HIPOCONDRÍACO
Eu não disse que estava doente?!?!
HUMORISTA
Isto não tem a menor graça.
JANGADEIRO DIABÉTICO
Foi doce morrer no mar.
JUDEU
O que vocês estão fazendo aqui? Quem está tomando Conta do lojinha?
PESSIMISTA
Aposto que está fazendo o maior frio no inferno.
PSICANALISTA
A eternidade não passa de um complexo de superioridade mal resolvido.
SANITARISTA
Sujou!!!
SEX SYMBOL
Agora, só a terra vai comer.
VICIADO
Enfim, pó!
ESPÍRITA
Volto já.
ADVOGADO
Disseram que morri.... mas vou recorrer!!! Moacir Japiassu | comentários(1)
04/03/2010 10:10 FERREIRA GULLAR
PEGA MAL
Como convencer-se de que o que disse naquele discurso era verdade, se já sabe que não era?
Como pode uma senhora de mais de 60 anos -que em breve será avó- dizer mentiras? E em público, para a nação inteira, sabendo que as pessoas honestas e informadas do país saberão que ela está dizendo mentiras e, ainda assim, o faz em altos brados, para que todos ouçam! Pergunto, sem maldade: pode alguém confiar numa senhora que mente?
E ela mesma, esta senhora que mente, terminado o ato público, a solenidade ou o comício, ao voltar para casa e deitar a cabeça no travesseiro, que dirá a si mesma?
Imaginemos a cena: ela sozinha no quarto, troca de roupas, deita-se na cama e apaga a luz. Foi um dia agitado, passou a noite a ouvir discursos no congresso de seu partido, à espera do momento em que faria seu próprio discurso, por todos esperado. Dali a alguns momentos, ela seria aclamada candidata à Presidência da República e, então, faria seu pronunciamento à nação.
E, nesse pronunciamento, iria mentir, iria afirmar coisas que sabia não serem verdadeiras, com o propósito de desacreditar os adversários políticos e futuramente derrotá-los nas urnas. E então mentiu, mentiu diante de seus companheiros de partido, que sabiam que ela mentia; mentiu perante o presidente da República, o inventor de sua candidatura, que ali estava a exaltar-lhe os méritos e sabia que ela mentia. E, agora, sozinha, no silêncio do quarto, que diria a si mesma?
Não pode dizer a si mesma que não mentira. Isso o mentiroso poderá dizer a alguém que o acuse de ter mentido: finge estar ofendido, faz-se de indignado e chega até a insultar quem o acusou de mentir. É parte do papel do mentiroso. Mas consigo mesmo, não consegue fazê-lo. Enganar os outros é possível, ou pelo menos ele acredita que consegue, mas enganar a si mesmo é bem mais difícil, se não impossível.
Como convencer-se de que o que disse naquele discurso era verdade, se sabe que não era? Com a cabeça no travesseiro, sozinha consigo mesma, será que lhe vem à mente a confissão dolorosa?
Será que, contra sua vontade, uma voz interior, que só ela ouve, lhe dirá: "Como teve a coragem de dizer esta noite, para o país inteiro ouvir, tantas inverdades? Acha certo enganar as pessoas? E pior ainda, enganá-las ao mesmo tempo em que se propõe governar o país?".
Não posso garantir que isso tenha ocorrido, pois há casos de pessoas mentirosas que terminam acreditando nas próprias mentiras. Se bem que esses que acreditam no que inventam são outro tipo de mentirosos, que necessitam, sobretudo, enganar-se a si mesmos, mais do que enganar os outros.
Esse gênero de mentira é diferente da mentira política, quando o cara afirma coisas que não aconteceram, que todas as pessoas informadas sabem que não aconteceram e, mais que todos, o próprio mentiroso o sabe e sabe que todos o sabem.
Pelo que li nos jornais e vi na TV, no 4º Congresso do Partido dos Trabalhadores, o que não faltou foi mentira. Creio que a ministra Dilma Rousseff é essencialmente honesta, tanto que sempre que afirma certas coisas, percebe-se hesitação em sua voz. Não se sente à vontade, como Lula, que, ali mesmo, afirmou ter sido o mensalão uma conspiração contra seu governo. Uma conspiração da qual deve ter participado o procurador-geral da República, uma vez que, em sua denúncia, falou de "uma quadrilha", chefiada pelo chefe da Casa Civil do Lula.
No segundo turno das eleições de 2006, o PT inventou que Geraldo Alckmin, se eleito, privatizaria a Petrobras, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. Isso nunca havia sido dito nem cogitado pelo PSDB, nem por seu candidato nem por ninguém.
Uma pura e simples calúnia, com o objetivo de minar a candidatura adversária.
O primeiro a dizer isso foi Lula, num debate na televisão. Alckmin o desmentiu, no mesmo instante. Lula se calou, mas, já no dia seguinte, a propaganda do PT insistia na mentira, que enganou muita gente e garantiu a vitória de Lula. Agora, mal começa a campanha, Dilma retoma a afirmação mentirosa, deixando claro qual será o nível em que o PT pretende conduzir a disputa.
Na verdade, durante o governo FHC, foram feitas várias privatizações, com resultado altamente positivo para o país, a começar pela telefônica, cuja privatização tornou o celular um bem comum a qualquer brasileiro; a CSN, privatizada, passou a dar lucro em vez de prejuízo aos cofres públicos; e a Vale do Rio Doce se tornou uma das maiores empresas do mundo.
Dilma cala sobre essas privatizações que deram certo e mente sobre as "privatizações" que nunca ninguém pensou fazer. Para uma senhora já de certa idade, ainda que petista, pega mal. Moacir Japiassu | comentários(3)
04/03/2010 10:07 ADEVOGADOS DO BRASIL
Os rapazes que fazem o impagável humorístico MTV Rock Gol invocam seus “adevogados”, da “ADEBRA”, para – o por assim dizer – “ameaçar” aqueles com quem discutem sobre preciosidades do ludopédico.
Assim, costumamos nos referir a certo time (de esmagadora maioria, infelizmente, diga-se) de “OABenianos” que na verdade deveriam ser filiados à ADEBRA ou à AZEBRA (Associação das Zebras ou algo que o valha, com o perdão do simpático quadrúpede listrado).
Então, como pequena amostra, tentemos nos divertir com o que segue:
“Importante salientarmos que, o local onde ocorreu a colisão é Rodovia Federal bastante sinalizada e movimentada e, que, ainda, não existiu interferência de fenômenos do tempo, pois, já estava dia e tempo bom e, demonstrando que dificilmente um motorista prudente, jamais realizaria uma manobra tão arriscada como a que praticou o Requerido, colocando em risco à vida de vários motoristas, inclusive a do Autor.”
Esta é só pequeníssima amostra da erudição contida na brilhante petição inicial em que está inserido tão lapidar parágrafo.
Há na referida peça toda sorte de belíssimas menções linguísticas, todas mui eruditas, tais como “que, após o acidente, o Autor fora atendido pelo Resgate...” e, na mesma frase, “fora conduzido ao Hospital...” (sujeito usa o pretérito mais-que-perfeito sem ter a menor noção do motivo ou do completo descabimento).
Afirma-se ainda que “ficou claro que o mesmo (“o mesmo”, na hipótese, é o autor, bem entendido, pois não?!) fora acometido de fratura exposta na perna direita...”. Entendeu? “Fora”! Afinal, é muito mais belo que o mero “foi”, compreende?! Isso sim é falar bonito, rapaz!
Observe também o escorreito uso do acento grave que forma a crase (“colocando em risco à vida de vários motoristas”). Não é um primor?!
(Por Youssef Ibrahim) Moacir Japiassu | comentários(0)
04/03/2010 10:05 O FIM DO MUNDO
COMO A IMPRENSA NOTICIARIA:
The New York Times
O MUNDO VAI ACABAR
Osservatore Romano
MUNDO ACABA OUTRA VEZ
Times (Londres)
RAINHA TEME VER DIANA DEPOIS DO FIM DO MUNDO
El Pais (Madrid)
SE HÁ GOVERNO NO OUTRO MUNDO, SOMOS CONTRA
Diário de Lisboa
LEIA AMANHÃ COMO O MUNDO ACABOU HOJE
Jornal da LBV
JESUS CRISTO VOLTA HOJE
O Globo
GOVERNO ANUNCIA O FIM DO MUNDO
Jornal do Brasil
FIM DO MUNDO ESPALHA TERROR NA ZONA SUL
Folha de S. Paulo
(ao lado de um imenso gráfico) SAIBA COMO VAI SER O FIM DO MUNDO
O Estado de S. Paulo
CUT E PT ENVOLVIDOS NO FIM DO MUNDO
Notícias Populares
PSICOPATA MATA A MÃE, DEGOLA O PAI, ESTUPRA A IRMÃ
E FUZILA O IRMÃO AO SABER QUE O MUNDO VAI ACABAR!
Tribuna de Alagoas
DELEGADO AFIRMA QUE FIM DO MUNDO SERÁ CRIME PASSIONAL
Estado de Minas
SERÁ QUE O MUNDO ACABA MESMO?
Jornal do Commercio
JUROS FINALMENTE CAEM!
Jornal dos Sports
NEM O FIM DO MUNDO SEGURA O MENGÃO
Correio Braziliense
CONGRESSO VOTA CONSTITUCIONALIDADE DO FIM DO MUNDO
Gazeta Mercantil
DECRETADA A FALÊNCIA DO FIM DO MUNDO
Jornal da Tarde
FIM DO MUNDO. E DAÍ?
Gazeta Esportiva
TIMÃO DESFALCADO PARA O FIM DO MUNDO
Folha Universal (do Bispo Edir Macedo)
PAGUE O DÍZIMO ANTES DE PARTIR
Veja
EXCLUSIVO! ENTREVISTA COM DEUS
- Por que o apocalipse demorou tanto?
- Especialistas indicam como encarar o fim do mundo.
- Paulo Coelho: "O profeta viu o fim do mundo e chorou".
Nova
O MELHOR DO SEXO NO FIM DO MUNDO
Playboy
NOVA LOIRA DO TCHAN: UM APOCALIPSE DE SENSUALIDADE
Info (Exame)
100 DICAS DE COMO APROVEITAR O WINDOWS THE END!
Época
ATÉ O FIM DO MUNDO SUA REVISTA "ÉPOCA" ESTARÁ CUSTANDO R$ 2,80
Guia de Programação NET
EXCLUSIVO: O FIM DO MUNDO NA GNT
Sexy
COMO TRANSAR NO ALÉM
SuperInteressante
DO BIG BANG AO FIM DO MUNDO
Casa Claudia
COMO DECORAR A SUA CASA PARA O FIM DO MUNDO
Diário Oficial (Campinas)
PREFEITO DESAPROPRIA BARRANCO PARA MORRER ENCOSTADO
Diário Oficial da União
PRESIDENTE FAZ A SUA ÚLTIMA VIAGEM
Diário Oficial da Justiça
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL CONDENA O FIM DO MUNDO
Diário do Congresso
ACABOU A MAMATA!
Revista G
ÚLTIMA NOITE NO PARAÌSO NA BOATE GLS
TEM CONCURSO DOS ANJOS MAIS BONITOS Moacir Japiassu | comentários(0)
04/03/2010 10:02 TALIS ANDRADE
AS CHAVES PERDIDAS
Na contramão refaço antigos passos
Meus rastos marcam os batentes
destas ruas onde fui menino
jogando bola e botão na calçada
Velhas ruas quando jovem
tive as chaves de todas as portas
Refaço os antigos passos
na desventura de buscar
não sei bem o quê
que viver tem sido
repetir os mesmos erros
na via-crúcis
do meu desterro
Na terra Natal
supostamente minha
revejo-me nos rapazes
e leio nos seus rostos
os cativantes sonhos
que cegaram meus olhos
os meus olhos cansados
das cousas fugidias
(in Os Herdeiros da Rosa) Moacir Japiassu | comentários(0)
25/02/2010 11:10 NOTA ONZE
MEDICAMENTO NUNCA FOI BEM DE CONSUMO
(Por Sérgio Mena Barreto, na FSP.)
EM UMA época marcada pelos avanços tecnológicos e pelo pleno acesso à informação, a Anvisa põe o Brasil na contramão do mundo ao tentar impor a resolução 44/09, que proibiria a venda de produtos de conveniência e prestação de serviços nas farmácias, além de retirar os medicamentos isentos de prescrição médica do alcance do consumidor.
A resolução apresenta um ponto ainda mais complexo: em muitos municípios, a farmácia funciona como correspondente bancário, prestando um serviço de grande importância à população que carece de bancos públicos ou privados. Cerca de 15 mil estabelecimentos prestam serviços como o recebimento de contas e entrega dos benefícios da Previdência Social.
Soa estranho a agência colocar os remédios na categoria de bens de consumo e as drogarias na de centro de compras. Segundo a Anvisa, ao comprar um produto de conveniência na farmácia, o consumidor seria influenciado a comprar remédios.
Restringir o acesso aos medicamentos isentos de prescrição médica e proibir a venda de alguns produtos na drogaria significa deixar o consumidor refém da falta de opção.
A concorrência que abre um leque de ofertas desapareceria, dando lugar ao monopólio de algumas marcas e acarretando preços mais altos que os atuais. Essa decisão é um caminho inverso do de mercados desenvolvidos, em que a farmácia tem incluído não medicamentos com uma série de facilidades para o consumidor.
Vale lembrar também que a norma da Anvisa está na contramão do que pensa a população. Para os brasileiros, é clara a diferença entre medicamentos e não medicamentos.
Em pesquisa divulgada pelo Ibope em novembro de 2009, 73% dos entrevistados afirmaram ser contra a proibição da venda de produtos de conveniência e serviços nas farmácias. O levantamento ouviu 1.302 pessoas de seis capitais. A margem de erro foi de 3%. Os cidadãos que vivem no Brasil querem, sim, uma farmácia como a que se vê em muitos países, como EUA e Inglaterra e até nos nossos vizinhos Argentina e Chile.
Colocar os remédios isentos de prescrição para trás do balcão segue a contramão do que acontece no mundo. Medicamentos dessa categoria têm por objetivo resolver pequenos males que não necessitam de atenção médica por sua própria natureza, mas também têm o papel de educar o consumidor, reduzindo impacto sobre os serviços públicos de saúde.
A decisão brasileira nada mais é que uma nova forma de censurar a população, como se as pessoas não soubessem comprar. A meu ver, é a verdadeira institucionalização da "empurroterapia", uma vez que se transfere para um funcionário da farmácia a decisão de compra.
O Chile é um exemplo real dos problemas dessa iniciativa. Depois de toda a população ficar refém dos medicamentos disponíveis só atrás do balcão, do aumento da "empurroterapia" e da escalada desenfreada de preços, o governo obrigou as farmácias a colocar os medicamentos sem receita novamente fora dos balcões, com livre alcance do consumidor.
Por fim, temos a questão legal propriamente dita. A Anvisa nunca teve competência para legislar. A agência é um órgão executivo com a função de fiscalizar, e atuação sempre infralegal. Somente uma outra lei poderia regular o que deve ou não ser vendido nas farmácias. No Brasil já existem 20 leis estaduais ou municipais que permitem a venda de produtos de conveniência em drogarias.
Não é um alimento ou outro tipo de produto que vai prejudicar o consumidor, mas a venda de medicamentos com tarja vermelha sem receituário médico, fruto direto da falta de acesso ao médico que assola nosso país, que ainda conta com 1.600 municípios sem nenhum hospital público e mais de 400 cidades sem médico em nenhum dia do ano.
A resolução 44/09 tem alguns pontos positivos. É um facilitador do processo de fiscalização, além de definir algumas regras sobre aplicação de medicamentos nas farmácias e restrição de medicamentos de tarja preta.
Embora haja aspectos favoráveis, os de âmbito negativo se sobressaem.
Medidas como essa da Anvisa servem de placebo, passando por cima da lei e do respeito ao consumidor.
SÉRGIO MENA BARRETO , 41, administrador de empresas, é presidente-executivo da Abrafarma (Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias).
Moacir Japiassu | comentários(0)
25/02/2010 10:33 NOTA ONZE
Editorial do Estadão
O EXCESSO DE ZELO DA ANVISA
Os consumidores são os mais prejudicados com as resoluções e instruções normativas que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) estabeleceu para o comércio de medicamentos e prestação de determinados serviços em farmácias e drogarias. As novas medidas, que determinam que os estabelecimentos farmacêuticos comercializem somente produtos e serviços de saúde, entraram em vigor esta semana e sua imposição foi justificada como "garantia do cidadão à orientação farmacêutica".
Segundo a Anvisa, a farmácia é um estabelecimento diferenciado e seu "ambiente" não pode ser banalizado por produtos que não têm relação com sua atividade-fim nem por "armadilhas" que levem os clientes a adquirir medicamentos que envolvem riscos. Para a Agência, muitas farmácias e drogarias estão organizadas como supermercados. Ao colocar os mais variados tipos de remédios em gôndolas, de analgésicos a vitaminas, fortificantes, plantas medicinais e essenciais florais, elas estimulariam a automedicamentação por parte dos clientes.
Para a Anvisa, além de estimular os consumidores a comprar remédios de que não necessitam, as farmácias - amparadas por leis estaduais e municipais - vinham se transformando em verdadeiras lojas de conveniência, como as existentes em postos de gasolina, vendendo perfumes, brincos, barbeadores, lâminas, alimentos para dietas, chás, refrigerantes, sucos, energéticos, frutas, sorvetes e jornais.
As novas regras, que estabelecem multas de R$ 2 mil a R$ 1,5 milhão para quem descumpri-las, tentam padronizar o funcionamento de todas as farmácias e drogarias do País. A iniciativa não levou em conta as diferentes realidades do Brasil. Com isso, a Anvisa colocou numa camisa de força um tipo de comércio varejista cujo funcionamento tem características próprias, que variam conforme o tamanho da cidade, a força econômica da região onde ela está situada e o perfil social de seus habitantes.
Para os proprietários dos pequenos estabelecimentos nas cidades do interior, por exemplo, vender medicamentos juntamente com produtos não farmacêuticos é a única maneira de sobreviver. Para os donos de farmácias de médio porte nos bairros de classe média das regiões metropolitanas, agregar novas atividades à venda de remédios, cosméticos e produtos de higiene pessoal é uma forma de ganhar escala que lhes permite enfrentar as grandes redes de drogarias. E, para os consumidores, essa estratégia comercial resulta em conforto.
Além de prejudicar comerciantes e consumidores, a resolução da Anvisa os trata como pessoas desinformadas e incapazes de discernir o que estão adquirindo. Pelas novas regras, os medicamentos - inclusive os vendidos sem receita médica - deverão ficar atrás dos balcões, fora do alcance dos clientes. Isso vai causar filas desnecessárias, limitar o poder de escolha dos consumidores e estimular a velha prática dos "diagnósticos e orientações" feitas por balconistas - também chamada de "empurroterapia". A medida também vai obrigar os pequenos e médios estabelecimentos farmacêuticos a contratar mais pessoal, o que pode inviabilizar o negócio.
Como afirma o presidente da Associação Brasileira de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), Sérgio Barreto, a resolução da Anvisa peca pela hipocrisia. Segundo ele, o mesmo poder público que não consegue instalar um hospital em cada um dos 5,5 mil municípios brasileiros, quer interferir no cotidiano de mais de 70 mil estabelecimentos farmacêuticos. "Há 1,6 mil municípios sem hospital público. É muito fácil satanizar o setor", diz Barreto, depois de acusar a Anvisa de estar indo na contramão de outros países. "No mundo inteiro a farmácia vem ampliando seus serviços. Só o Brasil restringe sua atuação", afirma.
Enquanto a Anvisa promete multar quem não se enquadrar na camisa de força por ela chamada de "boas práticas farmacêuticas", a Abrafarma divulgou uma pesquisa do Ibope, mostrando que 77% dos frequentadores de farmácia e drogarias estão satisfeitos com os serviços por elas prestados e acham que não faz sentido a ordem para que restrinjam seu campo de atuação.
(Editorial do Estadão em 20/2/10) Moacir Japiassu | comentários(0)
18/02/2010 08:14 CARLINHOS BRICKMANN
CHATAMENTE CORRETO
Uma organização politicamente correta iniciou uma campanha contra Angeli, o grande cartunista da Folha, por causa de uma tirinha de quadrinhos em que uma mulher apanha. Num quadrinho, a mulher se queixa: "Mário, há anos que você não me toca!" No quadrinho seguinte, Porrada. No terceiro, "Pronto! Não tem do que reclamar". A campanha vem embalada no slogan "violência contra a mulher, não tem graça nenhuma", desse jeito mesmo, com a violência contra o idioma; e diz que a tirinha é "lastimável, inadequada e violenta".
Abre-se caminho, assim, para uma série de campanhas politicamente corretas. Vamos fazer com que Dik Browne mude os hábitos de Hagar, o Horrível, que bebe demais, está acima do peso, detesta a sogra e saqueia os países vizinhos. E não é possível tolerar o que o desenhista Jim Davis faz com Garfield -que come lasanha, alimento inadequado para gatos, não faz exercícios, bate no cachorro Oddie e rouba a comida de seu dono. Horror, horror, horror! Bill Waterson estimula Calvin a brincar com um amigo imaginário, Haroldo, um bichinho de pelúcia que ele imagina ser um tigre, um feroz predador!
Cascão precisará tomar banho, claro. Que exemplo o nosso Maurício de Souza quer dar às crianças chatamente corretas? A Mônica deve ir ao dentista o mais rápido possível e perder seu feio hábito de bater nos meninos. Que tal nossa Moniquinha com sapatos de lacinho, vestidinho cor-de-rosa e uma margarida nas mãos, no lugar do coelhinho? Aline dividindo a cama com seus dois namorados, nem pensar. E Valentina, de Guido Crepax, dando sem parar?
Os amigos do politicamente correto que perdoem este colunista, mas há certas lembranças que funcionam como lições de História. Os nazistas acusavam o Super-Homem de ser judeu (como terão feito a circuncisão em seu pênis de aço?)
Vamos querer a patrulha ideológica de volta, para que comics expressem um pensamento único? Não é mais simples e democrático deixar de acompanhar as histórias em quadrinhos que consideremos inadequadas? Ou vamos exigir que os amiguinhos Batman e Robin dispensem o mordomo Alfred, que não tem hora de folga nem dia de descanso, e se mudem para um local mais ventilado e menos insalubre do que a Batcaverna que hoje dividem com aquele Batcarro poluidor? Moacir Japiassu | comentários(2)
18/02/2010 08:12 BONS TEMPOS DO JT
Em meados de 1986 eu exercia uma função jornalística na Denison Propaganda quando o então editor de Variedades do Jornal da Tarde de São Paulo, Pedro França Pinto, telefonou-me e perguntou se eu poderia escrever um artigo sobre a Bienal do Livro. Havíamos trabalhado juntos no mesmo JT, na década de 70, e nem pensei duas vezes. Entreguei o texto alguns dias mais tarde e ele quis saber se eu gostaria de ser cronista do jornal. Escreveria no Modo de Vida, caderno que saía às quintas-feiras e era um dos preferidos do público feminino.
Aos 44 anos de idade e 25 de jornalismo, aquilo era mais ou menos novidade para mim, que até aquele momento só havia cometido meia dúzia de crônicas, no início da carreira no Correio de Minas, de Belo Horizonte, quando nosso chefe, Dídimo Paiva, inventou uma coluna intitulada Um de Cada Vez. Naquele espaço democrático perpetrei algumas linhas nascidas do apaixonado coração canceriano. Lembro-me que Ignez Helena Abreu, colunista do jornal, mulher de asfixiante beleza, gostou do que escrevi. Naquela noite, fui dormir abraçado à lembrança da musa de todos nós, na esperança de que pudesse ser acordado no dia seguinte pela inspiração de Rubem Braga.
Porém os fados levaram-me por outros caminhos, mudei muitas vezes de cidade e de jornais, assaltaram-me o peito novas musas. Pensei, todavia, em Ignez Helena Abreu quando aceitei o convite de Pedrinho França para escrever no Modo de Vida. Durou três anos essa prazerosa aventura e não pensei em abandoná-la quando, no início de 1988, troquei a Denison pela Redação da revista Elle, que a Editora Abril iria lançar sob a direção de Leonel Kaz. Manifestei apenas alguma apreensão, porque talvez me falecesse tempo para cumprir as duas tarefas, mas Pedrinho respondeu: “Bobagem! Agora sim, é que você vai falar para multidões de mulheres, na revista e aqui no jornal”.
E mantive a colaboração até o final do ano seguinte, sempre a receber cartas de leitoras e de amigos que apoiavam incondicionalmente os devaneios/desvarios do cronista. Então, Pedrinho trocou a editoria de Variedades por outras funções no JT, foi substituído por uma bela moça e esta me convidou para um almoço, durante o qual disse-me: “Daqui para a frente, eu escolho os assuntos e você escreve, sim?”. Achei que era apenas um modo bem-educado de me demitir, respondi que um cronista não pode ser prisioneiro de temas alheios e me despedi, não sem antes tomar mais alguns uísques. Ela, quer dizer, o jornal, pagou a despesa.
(Texto de Moacir Japiassu, introdução à guisa de prefácio no livro "Carta a uma paixão definitiva - Ed. Nova Alexandria, 2007.)
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18/02/2010 08:07 NEI DUCLÓS
ASSOMBRO
Todo sangue reuniu-se no crepúsculo
Os barcos descansam sobre os peixes
Os tiros se aquietam como os pássaros
A nuvem fuma o roxo esquecimento
As margens são inúteis sem o vento
O céu faísca o ouro sem proveito
Alguém partiu ao soar do ângelus
Existia água, agora tudo é chumbo
Houvesse esplendor teríamos tudo
Mas há apenas medo diante do mundo
Perdemos o que nos fez humanos
Mas não há horror, apenas sonho
Teu olhar pinta o adeus supremo
A noite veste uma futura sombra
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11/02/2010 09:50 PATROCÍNIO
Responda depressa o que é mais difícil: demonstrar o teorema de Fermat ou conseguir patrocínio para programa de rádio? Voto no patrocínio e vou explicar por quê. Antes, porém, faço uma pausa para falar de um dos mais importantes jornalistas brasileiros, batizado Patrocínio, uma contradictio in terminis, contradição dos termos jornalista e patrocínio. O latinzinho entrou de lambujem, porque faz tempo que venho querendo usar essa expressão. Jornalista é uma coisa; patrocínio fica por conta do pessoal da área comercial, heróis sem os quais as empresas não sobrevivem.
Dona Emerenciana Ribeiro do Espírito Santo, fazendeira na região dos Campos dos Goitacazes, RJ, cedeu Justina do Espírito Santo, uma escrava Mina de 15 aninhos, ao serviço do vigário da paróquia, padre João Carlos Monteiro. Do serviço doméstico resultou o bebê José Carlos do Patrocínio, que o padre não reconheceu, mas encaminhou para sua fazenda na Lagoa Cima, onde viveu como liberto até inteirar 14 anos, convivendo com os escravos do vigário e com os castigos que lhes eram impostos.
Completada sua educação primária, pediu e obteve do pai autorização para mudar-se para o Rio de Janeiro, onde conseguiu emprego como servente de pedreiro na Santa Casa de Misericórdia. A partir daí, retomou os estudos a expensas próprias, formando-se em farmácia no ano de 1874. Casou-se, exerceu brilhantemente o jornalismo, foi abolicionista e monarquista, tentou construir um dirigível de 45 metros, o Santa Cruz, morreu tuberculoso aos 51 anos sem realizar seu sonho de avoar.
Até aí, tudo bem: só não dá para entender como conseguiu patrocínio para o periódico A Cidade do Rio, que dirigiu. Patrocínio, na rubrica publicidade, “apoio geralmente financeiro concedido como estratégia de marketing”, é muito mais difícil do que resolver o Último Teorema de Fermat, que foi objeto de estudos durante 300 anos, até ser demonstrado em 1994 pelo matemático britânico Andrew Wiles.
Há outras proezas igualmente difíceis, como subir a certos picos sem oxigênio engarrafado, mergulhar fundo sem máscara, aguentar o auê resultante da morte de Michael Jackson, mas nada se compara à obtenção de patrocínio para programas de rádio. E olhem que as quantias são ridículas, enquanto o retorno publicitário pode ser excelente.
Ridículas se comparadas com a receita de uma empresa de porte, uma cadeia de lojas de eletrodomésticos, um banco, uma distribuidora nacional de bebidas. É aí, no ridículo da importância pretendida, que reside o grande problema do patrocínio radiofônico. Se é coisa de milhões de reais, dá margem para sobrar algum que financie mensalões, projetos políticos e o futuro das famílias de muitos cavalheiros e damas.
Se é coisa de R$ 28 mil mensais, em que o custo de produção do programa – e só o custo – passa dos R$ 18 mil, ainda que o retorno publicitário seja magnífico, a importância não deixa margem para ajustes por fora, via caixa dois.
Por falar nela, caixa dois, o tal computador do Banco Central, instalado para controlar todas as transações bancárias de um país grande e bobo, vai fazer a fortuna das fábricas de malas, mochilas, valises e outros recipientes usados para transportar dinheiro. Contribuirá, também, para o sucesso das fábricas de cuecas, considerando que, no Brasil, têm sido utilizadas para transportar dólares e pacotes do alcalóide obtido das folhas da coca. (Eduardo Almeida Reis)
Moacir Japiassu | comentários(0)
11/02/2010 09:47 VINICIUS DE MORAES<
SONETO DE CARNAVAL
Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento.
Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido é um sofrimento
Cada beijo lembrado uma tortura
Um ciúme do próprio ciumento.
E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
Para a grande partida que há no fim
De toda a vida e todo o amor humanos:
Mas tranqüila ela sabe, e eu sei tranqüilo
Que se um fica o outro parte a redimi-lo
(Vinícius de Moraes) Moacir Japiassu | comentários(0)
04/02/2010 09:38 SALMO
Estou sentado numa praça à espera do Senhor.
Ele está atrasado e dos bancos em que se sentam os ricos
caem migalhas de pão que é o seu corpo.
Falta vinho, que é o seu sangue,
mas o vinho não falta em suas ceias.
É longa a espera, como longos têm sido os dias
em que tento me mover no trançado dos espinhos
ou na cruz que me tem pregado.
Não há fuga quando as amarras se misturam
aos braços, às pernas e no pensamento.
Não reconheço este sítio onde espero
e observo a fartura em outros bancos
eu faminto, insone, o corpo exibindo suas chagas,
a alma em busca de algo extinto
nas escadarias dos templos visitados.
Tenho permanecido na vizinhança das árvores
porém longe das sombras ocupadas.
Divido água e comida com os bichos.
À noite, penso que Deus é invenção soturna,
como os pássaros que cercam este lugar.
(Celso Japiassu in O Último Número) Moacir Japiassu | comentários(0)
28/01/2010 09:37 FERREIRA GULLARUNS MENTEM, OUTROS DELIRAM
Lula está convencido do papel que a História lhe teria destinado; parece personagem de Gogol
SERIA SIMPLIFICAÇÃO excessiva dividir os políticos em duas categorias distintas: a dos honestos, sinceros, imbuídos de espírito público, e a dos desonestos, mentirosos e voltados apenas para seus próprios interesses: enfim, anjos de um lado e demônios, do outro.
Sabemos que não é assim, e alguns escândalos ocorridos há pouco, no Congresso e fora dele, deixaram isso bem claro. Daí sermos levados a considerar que, queiramos ou não, o mundo político tem características peculiares que, se não nos devem levar a abrir mão das exigências éticas no comportamento de qualquer cidadão, ensinam-nos a admitir uma margem de tolerância que permita ao transviado arrepender-se e corrigir-se, mesmo porque todos nós estamos sujeitos, vez por outra, a pisar na bola.
É certo que há erros e erros e, como se sabe, se errar é humano, persistir no erro é indesculpável. E, infelizmente, em nosso universo político, há muitos que não apenas erram e persistem, como abusam da tolerância alheia.
Os valores éticos não podem ser relativizados, é claro, mas o desvio será tanto mais grave quanto mais importante for o lugar que ocupe o infrator no âmbito da sociedade. Por exemplo, o suborno é inaceitável, seja praticado por quem for, mas será certamente mais grave se quem o praticar for o governador do Distrito Federal ou um senador da República. Não será menos grave se se tratar de um ministro de Estado e, mais grave ainda, se for o presidente da República. Este, então, por sua condição de chefe de Estado, está obrigado a seguir com rigor e transparência todas as normas éticas e constitucionais.
Pois bem, mentir não é pecado apenas perante Deus, mas igualmente perante os cidadãos. Há um tipo de político para quem isso não tem importância, desde que contribua para manter seu prestígio ou a governabilidade. Há mesmo aqueles que garantem serem mentirosas as acusações verdadeiras que lhes são feitas, atribuindo-as aos adversários políticos ou à imprensa. Eles têm consciência de que a maioria da opinião pública sabe que mentem, mas estão se lixando para ela, já que os seus currais eleitorais só acreditam no que eles dizem e sempre votarão neles. O resultado é que importa, o pragmatismo está acima da ética.
E não é isso que fazem tantos políticos e, entre eles, Lula e seu partido? Todo mundo sabe que eles se opuseram ferozmente à política econômica do governo anterior, chegando Lula a afirmar que o Plano Real era um golpe eleitoral que não duraria seis meses; que a Lei de Responsabilidade Fiscal era uma farsa e o Proer, um pretexto para dar dinheiro a banqueiros. No entanto, desde o primeiro dia de seu governo, Lula aplica essas medidas que combateu, sem jamais dizer que as herdou do governo passado.
Pelo contrário, sua turma afirma que FHC lhes deixou uma herança maldita, quando, na verdade, a inflação de 2002 foi provocada pela possível vitória de Lula, que assustava os investidores. E, como se não bastasse, não hesitam em dizer que a oposição não tem programa de governo, sabendo que se apropriaram dele, uma vez que ostentam, como seu, o programa que era do governo anterior.
Deve-se reconhecer que ter seguido a política econômica que dera certo foi uma decisão correta do governo Lula, mas como admitir que governa apoiado nas medidas que, se dependesse dele e seu partido, jamais teriam sido adotadas? Não o admite porque seria aceitar que deve grande parte de seu êxito ao adversário, o que desarmaria a tese segundo a qual ele, Lula, não é apenas mais um presidente que o povo elegeu, e, sim, o único, até hoje eleito, que efetivamente o representa.
Essa convicção não se baseia em argumentos lógicos e, sim, numa visão mistificada, segundo a qual, depois de séculos, um filho do povo, nascido na pobreza, derrotou os ricos e tomou-lhes o poder. Por essa razão, o próprio Lula considera-se um predestinado. Não por acaso, em seus discursos, ele sempre afirma: "Nunca antes na história deste país...". E quer anular tanto o TCU quanto a imprensa, já que um predestinado não pode ser nem fiscalizado nem criticado.
Por isso mesmo, não diria que ele é um mentiroso nem um farsante, já que está convencido do papel que a História lhe teria destinado. Lembra-me aquele personagem de Gogol que, chegando à província, foi tomado equivocadamente como o inspetor geral a serviço do czar e passou então a agir como tal, certo de que era o que não era. Lula, como aquele personagem, pode acordar dessa ilusão, em 2010, quando o verdadeiro inspetor chegar à cidade. Ou não.
Moacir Japiassu | comentários(0)
28/01/2010 09:34 EX-ÍDOLO
Esquerda ataca presidente americano por descumprimento de promessas, como fechar Guantánamo
ANA FLOR
ENVIADA ESPECIAL A PORTO ALEGRE
Durou pouco a lua de mel do presidente dos Estados Unidos com a esquerda e movimentos antiglobalização que se materializaram no Fórum Social Mundial. Há menos de um ano, na edição anterior do fórum, em Belém (PA), Obama foi celebrado com euforia como a grande esperança daqueles que esperavam um líder mundial que levasse adiante bandeiras como justiça social, meio ambiente e o fim das guerras.
Reunidos desde segunda-feira em Porto Alegre, onde ocorre a 10ª edição do Fórum Social Mundial, intelectuais de esquerda e movimentos sociais não poupam críticas ao ex-ídolo que não cumpriu promessas como fechar Guantánamo, tirar as tropas do Iraque e pressionar por um novo acordo mundial para reduzir emissões de gases-estufa, na conferência do clima de Copenhague.
Se em Belém as camisas com o presidente recém-empossado eram disputadas, em Porto Alegre elas desapareceram.
"Todos pensaram "ele vai ser meu presidente", mesmo sendo brasileiros, franceses ou de qualquer outra nacionalidade", diz a cientista política e escritora Susan George. "Eu projetei meus sonhos nele, como todos projetaram", afirma.
Segundo David Harvey, professor de antropologia da City University de Nova York, a eleição de Obama teve valor simbólico. "Mas sua relação com o capital e Wall Street já nos avisava para não ter expectativas."
Oded Grajew, fundador do FSM, afirma que Obama não cumpriu suas promessas de campanha, o que desapontou não apenas os americanos, mas o mundo. "Guantánamo continua, há mais tropas no Afeganistão, a democracia em Honduras não foi respeitada, Copenhague foi um fracasso", diz.
Para Oded, a desconfiança nos EUA e "no mundo como um todo" voltou.
"Não estamos colocando a pá de cal, mas esse ano será o prazo fatal", afirma.
O sociólogo português Boaventura de Souza Santos é mais pessimista. "A América Latina não tem muitas razões para estar sossegada. Eu estou muito inquieto", diz ele, com referência às bases americanas na Colômbia, à crise em Honduras e à resposta ao terremoto no Haiti. "Muito das conquistas que tivemos na década foi porque os EUA estavam distraídos", diz. Moacir Japiassu | comentários(0)
28/01/2010 09:30 CECÍLIA MEIRELESCANÇÃO DE ALTA NOITE
Alta noite, lua quieta,
muros frios, praia rasa.
Andar, andar, que um poeta
não necessita de casa.
Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.
Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.
Andar...Perder o seu passo
na noite, também perdida.
Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.
Andar... - enquanto consente
Deus que seja a noite andada.
Porque o poeta, indiferente,
anda por andar - somente.
Não necessita de nada. Moacir Japiassu | comentários(0)
21/01/2010 09:28 COPA DO MUNDO
IMPRENSA NÃO DEVERÁ TER VIDA FÁCIL
(Por Márcio Bernardes*)
Ninguém consegue manter um
diálogo de mais de cinco minutos
usando um celular na África do
Sul. Fazer um boletim para rádio
além desse tempo sem cair a
linha é quase impossível. Esta é
uma das sérias e graves constatações
confirmadas na cobertura
do sorteio dos grupos da Copa
do Mundo.
O repórter Renato Ribeiro, da
Rede Globo, tentou passar uma
matéria, via internet, direto de
Robbin Island, local onde Nelson
Mandela ficou preso durante 18
anos. Não conseguiu a comunicação
e perdeu o deadline para o
Globo Esporte daquele dia.
O repórter Henri Karan diariamente
tem surtos de irritação
quando faz seus boletins para a
BandNews FM, dentro do programa
do Ricardo Boechat. A linha
cai sempre.
Na Cidade do Cabo, onde
aconteceu o sorteio, a paisagem
é linda, os hotéis são ótimos e
o povo acolhedor. Mas ninguém
pode sair caminhando pelas ruas
após as seis da tarde. A partir desse
horário tudo fecha – comércio,
shoppings etc..
Em Johanesburgo a situação é
mais grave. O trânsito é pior do
que o de São Paulo. O transporte
público é caótico. Não há metrô
e nem mesmo ônibus regulares
em número suficiente. O que
predomina na cidade e região é
o transporte por meio de vans. E
nelas não há indicações do trajeto,
número máximo de passageiros e
outras coisas elementares.
Estima-se que milhares de
taxis clandestinos rodem pela
cidade. São incontáveis os casos
de estupros, assaltos, roubos e
outros crimes a passageiros – e
principalmente passageiras – desavisados.
Qualquer profissional de imprensa
precisará ter o seu carro próprio
com GPS. E não deixar o aparelho
no vidro. A chance de ele ser roubado
é muito grande. Como também
não se aconselha andar pelo centro
e muitos bairros da cidade portando
e ostentando laptops, máquinas
fotográficas e celulares.
Os estádios são adequados e
pela amostra do Centro de Convenções
da Cidade do Cabo, imaginase
que internamente serão boas
as condições de trabalho. O maior
problema será sair pelas ruas.
(*) Márcio Bernardes esteve na África
do Sul para acompanhar o sorteio dos
grupos da Copa do Mundo de 2010 e
as demais atividades programadas
pela Fifa para a imprensa mundial
no período. Escreveu este artigo a
convite de J&Cia. Moacir Japiassu | comentários(3)
21/01/2010 09:24 TALIS ANDRADE
ESPELHANTES MEDOS
1
Onde verei refletida
tua face
No espelho da lua
no espelho das águas
Onde verei refletida
tua face
se a lua esconde
um lado escuro
leve brisa
frisa o lago
2
O espelho que guardou
a virginal nudez
- os dias fulgurantes
de tua beleza -
se partiu
em mil partes
espalhando fragmentadas
lembranças pelo quarto
Na negra noite
que desaba
sobre nossas cabeças
o grande medo
de ferir os dedos
(Talis Andrade in Os Herdeiros da Rosa) Moacir Japiassu | comentários(0)
14/01/2010 10:36 SÉRGIO AUGUSTO
O que nos lembra ou evoca a recém-inaugurada Torre de Dubai? A Torre de Babel? Os obeliscos egípcios? Os arranha-céus americanos?
Os Jardins Suspensos da Babilônia não se encaixam no parâmetro porque, embora fruto da megalomania humana, não tiveram motivação místico-religiosa, foram criados para agradar uma mulher saudosa do verde de sua terra natal. Babel e os obeliscos foram erguidos para que os homens pudessem chegar ao céu e para agradecer Rá, o deus sol, pela energia recebida, respectivamente. Ainda que o único templo de seu complexo de 206 andares seja uma mesquita, a Torre de Dubai é um preito a Mamon, o ídolo pagão do dinheiro.
Até o batismo do mais elevado e dispendioso totem do novo-riquismo árabe (custo total: US$ 1.5 bilhão) sofreu interferência do vil metal. Projetada com o nome de Burj Dubai, já se chamava, semanas antes da inauguração, Burj Khalifa, em homenagem ao xeique Khalifa bin Zayed al-Nahyan, governante de Abu Dhabi, a petrocracia vizinha que ajudou Dubai a cobrir um débito de US$ 100 bilhões. Os bilionários de Abu Dhabi não podem ver um arranha-céu que logo pensam em comprá-lo (pagaram US$ 800 milhões por 80% do prédio da Chrysler, em Nova York, o mais belo da espécie) ou financiar-lhe a construção.
Um editorial do jornal espanhol El País comparou a Burj Khalifa ao potlatch dos indígenas da América do Norte. Bem lembrado. O potlatch era uma cerimônia religiosa em que certas tribos destruíam freneticamente objetos de grande valor para demonstrar que eram ricos; uma dilapidação conspícua e exibicionista.
Dubai reinventou o potlatch, gastando a rodo com construções faraônicas, hoteis e resorts tão delirantes quanto cafonas, alimentando uma bolha imobiliária de proporções babilônicas, estopim da quase falência do emirado há pouco mais de um mês. A torre foi o clímax de uma escalada de extravagâncias arquitetônicas iniciada pouco depois do colapso do Lehman Bros., nos últimos meses de 2008, com a inauguração do inenarrável Hotel Atlantis, acréscimo certo numa eventual reedição da “Viagem na Irrealidade Cotidiana”, de Umberto Eco.
Por mais que o novo-riquismo chinês corra atrás (já ergueram o Shanghai World Financial Center em 2008 e preparam outro espigão na mesma cidade, a Torre de Shanghai, 131 metros mais alta), a Burj Khalifa, com 828 metros de altura, é e continuará sendo por um bom tempo o maior prédio do mundo, com o mais elevado terraço, a mais elevada fonte, o mais elevado mirante (no 124º andar), a mais elevada piscina (no 76º andar) e recordes que tais. Visível a 95 quilômetros de distância e com um panorama que, pelas fotos divulgadas, não vale a incursão até o topo (para que subir tanto para avistar uma Barra da Tijuca?), poderá abrigar mais de 12 mil pessoas em seus 144 apartamentos de luxo e no ainda mais luxuoso hotel grifado pelo costureiro Giorgio Armani.
("TOTEM DA EXTRAVAGÂNCIA", PUBLICADO NO ESTADÃO.) Moacir Japiassu | comentários(0)
14/01/2010 10:32 SÉRGIO AUGUSTO
(Segunda parte)
É uma insensatez pueril, uma perversão distópica do sonho modernista de ampliar a liberdade de movimentos no espaço urbano, um zigurate de complicada feitura (servido por 54 elevadores, subindo e descendo a uma velocidade de 65k por hora) e árdua manutenção. Seu topo é permanentemente fustigado por ventos que chegam a 20k por hora, o que, no mínimo, dificulta a limpeza. Porque fica no meio de um deserto, será necessário derreter o equivalente a 14 mil toneladas de gelo por dia para calibrar o ar condicionado e dessalinizar bilhões de litros de água para abastecer as torneiras.
Próxima a uma falha geológica, a fulgurante atalaia árabe está mais para um filme-desastre do que para King Kong. Na véspera de sua inauguração, o canal a cabo Telecine Cult reexibiu o catastrófico Inferno na Torre. Vendo os 138 andares da torre do filme consumidos pelas chamas não pude deixar de me lembrar da Burj Khalifa. Produzido, em 1974, como um tributo aos esforços e à coragem dos bombeiros de Los Angeles no socorro às vítimas dos terremotos que com frequência assolam aquela região, Inferno na Torre resultou numa crítica sem subterfúgios à ganância imobiliária, à desonestidade dos barões da construção civil, aos Sergio Nayas da Califórnia. Mesmo que não tenha havido mutretas na construção da torre de Dubai, impossível não ver nela um sucedâneo da Glass Tower cinematográfica.
Como o Empire State, erguido em meio à Grande Depressão de 80 anos atrás, com mão de obra barata sobrando e um clima de forçada euforia no ar, a torre de Dubai subiu ao longo de uma crise econômica global, tocada por operários imigrantes, a maioria indiana e paquistanesa, ganhando entre 5 e 20 dólares por dia e submetidos a um regime de trabalho draconiano, insensível a qualquer tipo de reivindicação. Fala-se que pelo menos três deles morreram durante a construção da obra, que demorou cinco anos mas conseguiu ficar pronta antes da Freedom Tower que irá substituir as torres gêmeas derrubadas no atentado de 11 de setembro.
A Freedom Tower terá 541 m de altura. Será o terceiro maior arranha-céu, caso a vindoura Torre de Shanghai (641 m) também fique pronta antes. No ranking dos espigões, o pioneiro Empire State, com 381 m, caiu para a sétima e última colocação, depois de reinar absoluto entre 1931 e 1972, até ser superado pelo World Trade Center (416 m), que só manteve a hegemonia durante dois anos. Com 442 m de altura, a Sears (atual) Willis Tower confiscou o recorde para Chicago em 1974 e só foi desbancada 24 anos mais tarde pelas torres gêmeas da Petronas, em Kuala Lumpur, na Malásia, que medem 452 metros.
Com a entrada dos chineses no “tower business”, durou pouco a prosa dos malaios. Mas os espigões de Shanghai, o que já existe desde o ano passado e o prometido para breve, não fazem sombra à torre de Dubai.
Perguntado se ela não era, afinal, uma manobra diversionista para desviar a atenção da pindaíba do emirado, o construtor Mohamed al Abbar malufou: “Construímos tudo isso para trazer qualidade de vida e felicidade às pessoas.” Mas quantos estarão dispostos a buscar a felicidade numa cidade como Dubai? Moacir Japiassu | comentários(0)
14/01/2010 10:28 NEI DUCLÓS
Imperfeito é o mar
que desova as luas que devora
Que devolve a flor
da compostura
oferecida em tambor
de epifania
Imperfeito é o mar
que resiste ao verão
que se anuncia
e mantém o frio
cinzelado
na armadura
Nesse exílio de mar que é o ano findo
O banho tardio expulsa a espuma
Imperfeito é o mar
que adia a pluma
oferecendo espinho,
a congelar os barcos
e a se livrar
do trigo
Insistimos, nós que enfim nos entregamos,
e descobrimos o mar pedindo auxílio
Imperfeito é o mar, extrema criatura
A sucumbir como um golfinho
trocando pirueta por comida
Irmão partido que não se despediu
E que ao nosso lado se socorre
De um poema afogado pela brisa
Vamos peitar o inverno, mar da minha vida
Vamos enfrentar os temporais da fuga
Imperfeito é o mar,
que assim me obriga
A dar-lhe a mão
e a ser seu filho
Pois se fosse Deus, onde estaria
minha vontade de bebê-lo até a loucura?
(Do livro ainda inédito Partimos de Manhã.)
Moacir Japiassu | comentários(0)
07/01/2010 09:14 CHUVAS DE VERÃO...< ... E ONDAS DE LOROTAS
Sérgio Cabral tem razão quando põe a culpa dos desabamentos de encostas na conta dos demagogos populistas, mas, como outros gestores, ainda deve o anúncio de providências
Chuvas, para um sertanejo como o autor destas linhas, são eventos meteorológicos do bem. São bênçãos que caem do céu para fertilizar solos secos castigados pelo sol. Mas nos últimos verões elas também desabaram como lavas de vulcão, ao mesmo tempo fertilizantes benignas e assassinas malignas. No Estado do Rio, principalmente, mas também aqui em São Paulo e em outros Estados do Sudeste e do Sul, as águas provocaram deslizamentos de morros e muitas mortes. Como toda tragédia natural, a tendência é atribuí-la ao imponderável, às forças da natureza, a algo incontrolável pela impotência humana sobre a Terra. A verdade não é bem esta.
Os soterramentos que matam resultam de agressões descabidas da ação humana contra a natureza. O governador do Rio, Sérgio Cabral, teve razão ao lamentar a ação nefasta dos demagogos populistas, cuja omissão na gestão pública permitiu que a vegetação nas encostas e os mananciais de água potável venham sendo afetados pela construção de imóveis fora da lei e de qualquer propósito. Sua Excelência só se esqueceu de que até agora ele próprio não tomou nenhuma atitude de autoridade, da qual foi investido por decisão soberana do povo de seu Estado, para reverter esse estado de coisas. Assim, falou como um roto maldizendo o esfarrapado e imitou o modelo de seu aliado federal, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, mesmo sem nunca ter lido uma palavra escrita pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre, parodia o lema deste segundo o qual “o inferno é o outro” para “o diabo é o adversário antecessor.”
Tragédias como a da Ilha Grande expõem os malefícios produzidos pelo populismo que, em nome de um falso amor ao cidadão comum, deixa de protegê-lo de sua própria incúria. É mera coincidência, mas deveria servir de alerta ocorrerem logo após a reunião do clima em Copenhague, de que o Brasil de Lula, Sérgio Cabral, Serra e outros gestores públicos, participou com a conversa mole e a absoluta ausência de atitudes de sempre. Retórica política não salva vidas nem impede mortes.
A reação insensível à tragédia das vítimas dessas enxurradas não é exclusiva de um partido político nem de uma posição ideológica. As queixas de Cabral, do PMDB de Lula, assemelham-se à alienação do prefeito paulistano, Gilberto Kassab, do DEM de Serra. A repetição cíclica do noticiário fúnebre, acompanhado sempre da onda de declarações enfáticas, nunca acompanhadas de políticas eficazes para evitar as ocupações ilícitas de encostas e mananciais e o empoçamento das vias impermeabilizadas de nossas metrópoles, é um achincalhe à inteligência e à sensatez dos cidadãos que elegem seus governantes.
((José Nêumanne Pinto, jornalista, escritor e editorialista do Jornal da Tarde.)
Moacir Japiassu | comentários(1)
07/01/2010 09:10 INVERNO
Zefa, chegou o inverno!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Lama e mais lama
chuva e mais chuva, Zefa!
Vai nascer tudo, Zefa,
Vai haver verde,
verde do bom,
verde nos galhos,
verde na terra,
verde em ti, Zefa,
que eu quero bem!
Formigas de asas e tanajuras!
O rio cheio,
barrigas cheias,
mulheres cheias, Zefa!
Águas nas locas,
pitus gostosos,
carás, cabojés,
e chuva e mais chuva!
Vai nascer tudo
milho, feijão,
até de novo
teu coração, Zefa!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Chuva e mais chuva!
Vai casar, tudo,
moça e viúva!
Chegou o inverno
Covas bem fundas
pra enterrar cana:
cana caiana e flor de Cuba!
Terra tão mole
que as enxadas
nelas se afundam
com olho e tudo!
Leite e mais leite
pra requeijões!
Cargas de imbu!
Em junho o milho,
milho e canjica
pra São João!
E tudo isto, Zefa...
E mais gostoso
que tudo isso:
noites de frio,
lá fora o escuro,
lá fora a chuva,
trovão, corisco,
terras caídas,
córgos gemendo,
os caborés gemendo,
os caborés piando, Zefa!
Os cururus cantando, Zefa!
Dentro da nossa
casa de palha:
carne de sol
chia nas brasas,
farinha d'água,
café, cigarro,
cachaça, Zefa...
...rede gemendo...
Tempo gostoso!
Vai nascer tudo!
Lá fora a chuva,
chuva e mais chuva,
trovão, corisco,
terras caídas
e vento e chuva,
chuva e mais chuva!
Mas tudo isso, Zefa,
vamos dizer,
só com os poderes
de Jesus Cristo!
(Jorge de Lima)
Moacir Japiassu | comentários(0)
30/12/2009 10:13 NÓS, OS BURROS
Aluno, em 1964, do curso de jornalismo, ficava a Escola, no Rio,
próxima ao aterro do Flamengo, então um canteiro de obras. Ali
pastavam animais de carga.
Um grupo de colegas, no qual me incluía, não suportava o tom
laudatório do professor Hélio Vianna, ao se referir ao marechal
Castelo Branco, seu cunhado, e primeiro a ocupar a Presidência em nome
da ditadura. Decidimos pregar-lhe uma peça. Sequestramos um burro no
aterro e o enfiamos na sala de aula.
No corredor do andar de cima, ficamos a observar a reação do professor
de história. Hélio Vianna entrou na sala e, para a nossa decepção, ali
permaneceu em companhia do muar, durante 50 minutos. Dado o sinal,
retirou-se impassível, sem demonstrar contrariedade ou queixar-se à
direção. Deu mais trabalho fazer o burro descer do que subir os
degraus da faculdade.
Na semana seguinte o episódio parecia mergulhado no olvido. Hélio
Vianna entrou em classe e - novo desaponto - não nos passou nenhuma
reprimenda. Deu aula como se nada tivesse ocorrido. Nos últimos
minutos, advertiu-nos:
"Aviso aos senhores e senhoras que, na semana próxima, haverá prova.
Peguem os pontos com o único colega que, na aula passada, se
encontrava em classe". E não mais disse.
Como estudar para a prova sem a menor noção da matéria indicada? No
dia fatídico, o professor nos pediu uma dissertação, por escrito, de
como o Tesouro da Holanda havia sido afetado pela invasão holandesa no
Nordeste brasileiro. Zero geral.
Burros fomos nós.
Frei Betto.
Moacir Japiassu | comentários(0)
30/12/2009 10:11 CARTA DE MÃE
Meu querido filho Frederico:
Escrevo estas poucas linhas que é para saberes que estou viva.
Escrevo devagar porque sei que não gostas de ler depressa. Se receberes esta carta, é porque chegou. Se ela não chegar, avisa-me que eu mando outra.
O teu pai leu no jornal que a maioria dos acidentes ocorre a 1 km de casa. Por isso, mudamo-nos pra mais longe.
Sobre o casaco que querias, o teu tio disse que seria muito caro mandar pelo correio por causa dos botões de ferro que pesam muito. Assim, arranquei os botões e coloquei-os no bolso. Quando chegar aí, pregue-os de novo.
No outro dia, houve uma explosão no botijão de gás aqui na cozinha. Teu pai e eu fomos atirados pelo ar e caímos fora de casa. Que emoção! Foi a primeira vez em muitos anos que o teu pai e eu saímos juntos.
Sobre o nosso cão, o Rexlino, anteontem foi atropelado e tiveram que lhe cortar o rabo, por isso toma cuidado quando atravessares a rua.
Tua irmã Laura vai ser mãe, mas ainda não sabemos se é menino ou menina. Portanto, não sei se vais ser tio ou tia.
Hoje, teu irmão Valclintone me deu muito trabalho. Fechou o carro e deixou as chaves lá dentro. Tive de ir em casa, pegar a reserva para a abrir. Por sorte, cheguei antes de começar a chuva, pois a capota estava arriada.
Se vires a Dona Rosinha, diz-lhe que mando lembranças. Se não a vires, não digas nada.
Um beijo,
Tua mãe Marcela
PS: Era para te mandar os 300 euros que me pediste, mas quando me lembrei já tinha fechado o envelope. Moacir Japiassu | comentários(1)
30/12/2009 10:08 RECEITA DE ANO NOVO
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
(Texto extraído do "Jornal do Brasil", Dezembro/1997.)
Moacir Japiassu | comentários(0)
23/12/2009 11:01 MANUAL DO BÊBADO
Coisas que são DIFÍCEIS de dizer quando você está bêbado:
- Indubitavelmente.
- Preliminarmente.
- Proliferação.
- Inconstitucional.
Coisas que são EXTREMAMENTE DIFÍCEIS de dizer quando você esta bêbado:
- Especificidade..
- Transubstanciado.
- Verossimilhança.
- Três tigres.
Coisas que são TOTALMENTE IMPOSSÍVEIS de dizer quando você está bêbado:
- Puta merda, que menina feia!!!!
- Chega, já bebi demais....
- Sai fora, você não é o meu tipo...
MANUAL PRÁTICO
Como agir quando se bebeu demais e está com os seguintes sintomas:
SINTOMA: Pés frios e úmidos.
CAUSA: Você está segurando o copo pelo lado errado..
SOLUÇÃO: Gire o copo até que a parte aberta esteja virada para cima.
SINTOMA: Pés quentes e úmidos.
CAUSA: Você fez xixi.
SOLUÇÃO: Vá se secar no banheiro mais próximo.
SINTOMA: A parede a sua frente está cheia de luzes.
CAUSA: Você caiu de costas no chão.
SOLUÇÃO: Coloque seu corpo a 90 graus do solo.
SINTOMA: O chão está embaçado.
CAUSA: Você está olhando para o chão através do fundo do seu copo vazio.
SOLUÇÃO: Compre outra cerveja ou similar.
SINTOMA: O chão está se movendo.
CAUSA: Você está sendo carregado ou arrastado.
SOLUÇÃO: Pergunte se estão te levando para outro bar.
SINTOMA: O local ficou completamente escuro.
CAUSA: O bar fechou.
SOLUÇÃO: Pergunte ao garçom o endereço de sua casa.
SINTOMA: O motorista do táxi é um elefante rosa.
CAUSA: Você bebeu muitíssimo.
SOLUÇÃO: Peça ao elefante que o leve para o hospital mais próximo.
SINTOMA: Você está olhando um espelho que se move como água.
CAUSA: Você está para vomitar em uma privada.
SOLUÇÃO: Enfie o dedo na garganta
SINTOMA: As pessoas falam produzindo um misterioso eco.
CAUSA: Você está com a garrafa de cerveja na orelha.
SOLUÇÃO: Deixe de ser palhaço.
SINTOMA: A danceteria se move muito e a música é muito repetitiva.
CAUSA: Você está em uma ambulância.
SOLUÇÃO: Não se mova. Possível coma alcoólico.
SINTOMA: A fortíssima luz da danceteria está cegando seus olhos...
CAUSA: Você está na rua e já é dia.
SOLUÇÃO: Tente encontrar o caminho de volta para casa.
SINTOMA: Seu amigo não liga para o que você fala.
CAUSA: Você está falando com uma caixa de correios.
SOLUÇÃO: Procure seu amigo para que ele te leve para casa.
SINTOMA: Seu amigo não pára de falar repetidamente as mesmas palavras
CAUSA: Você está falando com o cachorro do vizinho
SOLUÇÃO: Peça pra ele mostrar onde é sua casa. Moacir Japiassu | comentários(3)
23/12/2009 10:57 TECNOLOGIA MINEIRA<
O considerado Symphronio Veiga, brilhante jornalista e pesquisador dos passos do Homem sobre a Terra, enviou diretamente de uma caverna do interior de Minas:
Durante escavações nos estados do Rio de Janeiro, arqueólogos
fluminenses descobriram, a 100 m de profundidade, vestígios de fios de
cobre que datavam do ano 1000 dC.
Os cientistas cariocas concluíram que seus antepassados já dispunham
de uma rede telefônica naquela época.
Os paulistas, para não ficarem atrás, escavaram também seu
subsolo e encontraram restos de fibras óticas a 200 m de profundidade.
Após minuciosas análises, concluíram que elas tinham 2000 anos de idade.
Os cientistas paulistas concluíram, triunfantes, que seus antepassados
já dispunham de uma rede digital à base de fibra ótica quando Jesus
nasceu!
Uma semana depois, em Belo Horizonte, foi publicado por cientistas
mineiros o seguinte estudo:
Após escavações arqueológicas no subsolo de Picirica, Setilagoa, Betim, Barbacena, Passa-Quato, Jijifó, Sans Dumont, Pouso Alegre, Santantoin do Monte, Varginha, Nanuque, Águas Formosas, Moncarmelo, Carnerim, Lagoa Dorada, Sanjão Del Rei, Beraba, Berlândia, Belzonte, Bosta do Raguari,
Divinópis, Pará de Mins, Furmiga, Vernador Valadars
e ainda Toflotôni, Piui, Carmo do Cajuru, Lagoa Santa, Morro do Ferro, Biraci e diversas outras cidades mineiras, até uma profundidade de 500 metros, não foi encontrado absolutamente nada.
Concluiu-se então que os antigos mineiros já dispunham há 5000 anos de uma rede de comunicações sem-fio: "wireless".
Nota dos arqueólogos: Por isso se pronuncia "UAI" reless. Moacir Japiassu | comentários(2)
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